sexta-feira, 23 de maio de 2014

Cidadão Kane aquém?


No dia 22/05, o IBOPE divulgou uma pesquisa para a corrida presidencial 2014. No pacote de investigações sobre as intenções de voto, o Instituto pergunta também ao entrevistado sobre sua avaliação da atual gestão da presidente Dilma Rousseff. (Confira aqui a pesquisa divulgada pelo portal UOL.)

À noite, assistindo a dois telejornais, pude testemunhar o que é o acinte da manipulação desavergonhada da notícia para cumprir certos propósitos (os quais, inclusive, nem são tão claros e muito sujeitos a especulações). E ainda há alguns arautos da grande imprensa que insistem em defender sua "isenção", sua "imparcialidade". Que esta isenção seja desejável, não há dúvida. Mas que ela efetivamente acontece, é muito ingênuo acreditar (e desonesto propagar, por se saber ilusório).

No primeiro, o Jornal da Band que tem como âncora Ricardo Boechat, a notícia é dada da maneira correta: chamada para a pesquisa sobre a corrida presidencial; ressalta que Dilma levaria a eleição ainda no primeiro turno porque seu percentual de intenção de votos (40%) é superior à somatória de todos os outros candidatos juntos (inclusive indecisos) e também no segundo, tanto na simulação contra Aécio Neves (PSDB) quanto contra o candidato Eduardo Campos (PSB). Na sequência, o jornal indica que a pesquisa "também" inquiriu os entrevistados sobre uma avaliação do governo. Ou seja: deixou claro que este último não foi o foco, mas era uma pesquisa sobre intenções de voto e o tema entrou de forma complementar.

Terminado o Jornal da Band, tenho o hábito de conferir como as notícias são veiculadas no Jornal Nacional (Rede Globo), principalmente porque é sabido o seu poder de penetração como veículo de informação. Sou um dos muitos que somam a massa de decepcionados com o que se tornou o Partido dos Trabalhadores e estou longe de ser um dilmista ou mesmo defensor da presidente Dilma e um crítico do populismo barato do ex-presidente Lula (que tem suas sacadas, mas se perdeu no jogo do poder). A despeito disso (e de ser um dos que incorporam a massa de "indecisos"), fiquei chocado com o que o Jornal Nacional fez: um ato de revoltante pseudo informação. Num rompante de resgate da era pré-Collor, os âncoras William Bonner e Patrícia Poeta, iniciam a chamada da matéria evocando uma pesquisa do IBOPE sobre a avaliação do Governo Dilma. Dão os números (razoavelmente negativos), ressaltando ainda aqueles que desaprovam o governo. Nada, absolutamente nada é falado sobre a corrida presidencial e sobre o fato de que, apesar de não tão bem avaliada, Dilma levaria a eleição na eventualidade dela ser por estes dias. Nem uma palavra sobre a intenção de voto foi dita na matéria.


Levando em conta o poder do veículo que representam e que os âncoras de um telejornal são responsáveis por sua edição, não encontro outra palavra a não ser calhordice para classificar este tremendo gesto de desrespeito para com o eleitor (e sua inteligência), o cidadão que procura esta fonte para se informar. Poder barato da Imprensa à la "Beyond Citizen Kane" - conhecido documentário produzido e dirigido em 1993 por Simon Hartog para uma emissora de TV do Reino Unido que narra todo o processo de manipulação das informações da mídia e suas relações com o poder (usando a Rede Globo como fio condutor) e que expôs o caso de ascensão e queda de Fernando Collor de Mello, com uma análise que se tornou referência sobre a edição do último debate que foi ao ar no mesmo jornal da emissora. Este documentário nunca foi exibido no Brasil, ensejando, durante muito tempo, a consolidação do mito de que ele teria sido "proibido" e "alvo de ação judicial da emissora", ameaças etc. (o que, segundo vários analistas, nunca aconteceu).

Mais uma vez, passados mais de 20 anos das aviltantes e desavergonhadas manipulações de informação, herança dos vários períodos ditatoriais (e não só o Golpe de 64) da história brasileira no século XX, em pleno período democrático, experimentamos esta sensação de descrença deste importante e decisivo mecanismo de manutenção das forças democráticas que é a imprensa. Afinal, informação alicerça o poder de decisão, de escolha, de ação.

Tudo isso confirma as ideias de Noam Chomsky e Edward S. Herman no célebre livro "Manufacturing Consent" (transformado num excelente documentário dirigido pelos canadenses Mark Achbar e Peter Witonick, os mesmos que realizaram "The Corporation", anos mais tarde). Uma das questões mais relevantes do ponto de vista da organização social é a manutenção do controle da ordem: como garantir que a sociedade funcione, sem grandes conflitos de interesses que levaria, num extremo, a um estado de anomia. Para isso, é muito importante que as pessoas que compõem este determinado grupo estejam minimamente controladas. Há formas legítimas (sistemas democráticos, em que as pessoas, em tese, aceitam formas de controle - como as leis, autoridade familiar, igreja etc. - por entenderem que elas são importantes para o bom funcionamento do grupo) e há formas ilegítimas (aquelas em que o controle é exercido pela força, como nas ditaduras). Para pensar sobre isso, Chomsky e Herman, dois dos mais ácidos críticos das relações entre mídia e poder, tomam uma ideia importante de um intelectual americano dos anos 1920, Walter Lippmann. Em um sistema democrático, uma vez que o uso da espada e da força bruta para manter as pessoas sob controle o descaracterizaria como tal, a sociedade encontrou uma maneira muito mais eficaz para cumprir este propósito: controlar o que as pessoas pensam. Controlando o que elas pensam, controla-se o seu comportamento e o seu direcionamento. Inclusive, suas escolhas. E parte da grande imprensa vem cumprindo com louvor este papel. Principalmente se o seu campo de ação for uma sociedade com baixo potencial de leitura crítica das informações que recebe. 

Com relação ao caso em questão, que ensejou este texto, seria muito mais honesto e interessante que os agentes da mídia pudessem assumir, às abertas, o seu lugar no debate político. Seria desejável, no mínimo, que fossem mais éticos e, ao invés de assumir uma posição parcial às ocultas, velada (o que os expõe ao ridículo diante daqueles que têm um pouco mais de senso crítico frente ao que veem e leem por meio de seus canais) e assumissem de vez o seu lugar no jogo do poder. Até porque, em tempos de democratização da informação e do debate por meio das mídias cibernéticas, esta máscara leva muito menos tempo para cair, expondo os seus protagonistas a um certo vexame.

Que as organizações Globo (e qualquer outra empresa de mídia) sejam contra a reeleição de Dilma Rousseff, é aceitável. Não vejo problema na parcialidade, desde que às claras. Mas não ajam como bandidos na calada da noite, de forma sorrateira, manipulando informações para direcionar o eleitorado incauto e ignaro para o que desejam. E o que é pior: vendendo a imagem de imparcialidade. Isso é muito feio. E já passou o tempo desse tipo de recurso bem primário.

Afinal, todos sabemos, como afirma um dos entrevistados no documentário de Hartog supracitado a respeito das Organizações Globo, mas que vale para qualquer empresa da grande imprensa: elas não se interessam necessariamente por este ou aquele candidato; não se interessam por este ou aquele partido. Interessam-se pelo poder! Até podem, como é o caso aqui debatido, tentar trabalhar para eleger o candidato que julgam mais afinados com seus propósitos. 

Mas isso, como bem demonstrou o caso Collor, é muito arriscado.


Depois de tudo, ainda vêm com o discurso de que não entendem porque, no ano passado, muitos manifestantes foram até a sede da empresa em São Paulo para gritar contra esta prática hedionda.

Poupe-nos a nós, brasileiros, de sermos chamados de tolos.

Nota 1: Há alguns anos, um dos mentores do jornalismo da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (o "Boni") lançou um livro em que resgata esta história da edição do Jornal Nacional. Confira a matéria publicada no blog Pragmatismo Político em 2011 a este respeito: Após 22 anos, Boni admite que Globo armou contra Lula para eleger Collor.

Nota 2: Caso queira conferir a versão da Rede Globo sobre o debate, veja esta página do Memorial da Globo Debate Collor x Lula (1989). Ela contém, inclusive, alguns depoimentos dos responsáveis pelas edições do jornal. 




quinta-feira, 22 de maio de 2014

De quem viria o suposto "ócio brasileiro"?



Em uma entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo para falar sobre seu último livro intitulado "O Futuro Chegou" (veja aqui), de modo simpático e positivo, o eminente sociólogo italiano Domenico de Masi, autor de teorias como o “ócio criativo” afirma que

"Os índios não trabalhavam. Não era necessário. Tudo estava na natureza. Não precisavam nem se vestir, porque o clima era bom. O brasileiro herdou do índio esse senso de ócio."

Reiterando a antiquada visão idílica do "bom selvagem" e da "natureza exuberante" que só tem "facilidades" presente em vários mitos (contemporâneos ou clássicos) do nosso mundo ocidental, e embora a intenção do sociólogo italiano seja a de elogiar o ócio brasileiro, ele não deixa de cometer uma série de equívocos guiados por este estereótipo. A teoria de De Masi está inserida num rol de críticas ao sistema capitalista - em particular, ao mundo do trabalho - e suas consequências para a construção do homem moderno. Desta forma, sua teoria parte da ideia de que é necessário pensar nos espaços de descanso, contemplação e "nada fazer" como parte do processo produtivo e até mesmo como forma de redistribuição da mais valia gerada. 

Embora reconheça alguns  pontos positivos propostos por esse pensamento, entendo que, ao sr. De Masi, faltou - especificamente no caso brasileiro - um pouco de profundidade no conhecimento (ou na sua verbalização) a respeito tanto da realidade dos nossos povos indígenas, quanto da nossa própria formação histórica e sociocultural. Para qualquer cientista social, ouvir que o nosso "culto ao ócio" é herança indígena, é de uma superficialidade tamanha que causa comichão no fundo da alma. Esse clichê iluminista de que os índios não trabalhavam (e não trabalham), de que são preguiçosos, de que cultuam o ócio etc.  e que foi daí que herdamos nossa leseira, é de um nonsense sem tamanho. Sem falar que este tipo de ideia contém o germe pernicioso (embora saiba que não tenha sido intenção do sr. De Masi enveredar por este campo nem reiterá-lo) de reacender a chama do preconceito com relação à indolência, à falta de produtividade dos povos indígenas e que, por isso, tais populações seriam um estorvo ao desenvolvimento, ao capitalismo etc. e precisariam ser incorporadas o quanto antes como mão de obra proletária ao processo produtivo nacional. (Todos nós já vimos barbaridades que este tipo de ideia promoveu e continua promovendo - vide o caso Guarani Kayowá que está, vez ou outra, pipocando na mídia.)

Para não me estender muito (senão acaba virando um texto de antropologuês), gostaria de ressaltar dois aspectos importantes no diálogo com essas ideias de Domenico de Masi proferidas na entrevista à Folha:

1) Os povos indígenas trabalhavam e trabalham muito. A diferença é que eles não têm uma mentalidade cumulativa: trabalhar para acumular bens. Consequentemente, o tempo dispendido no trabalho pode até ser um pouco menor, quando comparado ao nosso. Entretanto, isso não significa que não se dê muito duro nas lavouras, nas caçadas, nas coletas e nas demais atividades (como artesanato e, antigamente - como bem demonstra Florestan Fernandes - na guerra). A esse respeito, basta ler um pouco de Marshall Sahlins (grande antropólogo americano) e sua análise da sociedade da afluência e o nosso querido Darcy Ribeiro (só para citar dois exemplos) para entender um pouquinho dessa questão.

2) Dizer que nós herdamos a preguiça e a leseira dos índios é, no mínimo, ignorar a cultura anti-trabalho do catolicismo da nobreza europeia, tão genialmente analisado por Max Weber e trazido para a interpretação do Brasil pelo "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda (Cap. "O aventureiro e o trabalhador do livro). Para o nobre católico europeu, o trabalho é um descaminho para Deus (a quem se deve chegar pela contemplação e pela oração); ao contrário do burguês protestante, para quem o sucesso no trabalho era um grande sinal de ser um "eleito" por Deus para a Salvação no Paraíso. Até um jovem de 18 anos, aluno meu, calouro de Administração de Empresas, aprendeu esta lição. Vejam o que escreveu em um trabalho que, coincidentemente corrigi esta semana: 

"Ideias inspiradas por Weber que diz sermos herdeiros de uma tradição europeia católica e de nobreza e por tal motivo nascemos avessos ao trabalho e ao esforço, o que nos levou a nossa atual mentalidade social e destruição generalizada dos pontos que compõem a tríade da modernidade."

A despeito desta ideia, que pode ser verdadeira se levamos em conta os parâmetros da produtividade capitalista (analisado, entre outros, pelo economista norteamericano Thorstein Veblen na sua "Teoria da Classe Ociosa"), é muito interessante relembrarmos que recentemente, a Organização Internacional do Trabalho divulgou uma pesquisa revelando que o "brasileiro trabalha mais e produz menos". Segundo a pesquisa: 

"Um brasileiro trabalha por ano, em média, mais horas do que um francês, italiano, suíço, alemão, norueguês, dinamarquês ou belga."

Ou seja, parece que a ideia de um "ócio nacional" está mais para um mito do que para uma realidade. Claro que, como mito, tem sua força e eficácia simbólicas muito presente em nosso imaginário e nosso cotidiano. Como afirma, de certo modo, Roberto DaMatta: uma sociedade que quer ganhar muito, fazendo pouco esforço. Entretanto, saindo do campo do imaginário e entrando na realidade, os dados nos colocam como uma das nações que mais trabalha no mundo. O que não vemos é o resultado desse esforço tal como gostaríamos. Além do mais, ainda que este culto ao ócio exista sob certos aspectos e dimensões, estaria muito mais vinculado a uma tradição nobre católica européia do que uma tradição indígena propriamente dita. No máximo, uma fusão das duas lógicas, mas cujo fator orientador de comportamento mais forte viria da nossa formação nobiliárquica ibérica.

Curioso é que, como bem me lembrou um amigo, "Domenico" é o nome que os italianos costumam dar a quem nasce num domingo, dia de descanso, de repouso. Coincidência ou não, é do italiano que vem a expressão "dolce far niente" e este tem sido o tema que tornou célebre este sociólogo mundo afora. 

Desta maneira, embora, como já afirmei, o Sr. De Masi tenha feito o seu comentário em tom elogioso ao ócio indígena (e, por tabela, ao brasileiro), precisaria conhecer um pouco mais nossas tradições indígenas assim como se se lembrar melhor das nossas raízes europeias e, em particular, a nossa latinidade - que partilhamos tão proximamente com ele.

Esse tipo de argumento pode causar certo impacto, mas creio que não se sustenta. 

Palavras Iniciais

Olá,

Bem vindo a um espaço que, antes de mais nada, é despretensioso. Ou melhor, se há alguma pretensão é a de exercitar a arte da escrita, refletindo livremente sobre fatos, idéias, cinema, filosofia enfim, tudo o que valer a pena pensar.

Como se não bastasse a exigência da profissão, eu mesmo me impus a necessidade de registrar meus pensamentos os quais, reconheço, considero valiosos pela única e exclusiva razão de serem meus, de representarem meu ponto de vista sobre as coisas. Nada mais. É, pois, nesse exato sentido que me refiro à ausência de pretensão. Quero apenas falar. Falar livremente. E se o transeunte cibernético que por aqui se aventurar sentir que vale a pena iniciar um diálogo a respeito das idéias apresentadas (as quais, já adianto, não serão tão aprofundadas), vou sentir que terá alguma utilidade para além da minha própria extravasão.

Apesar de relativamente antigo, eu me esqueci completamente da criação deste espaço. Nele havia deixado, oculto, um único texto que resolvi publicar mesmo estando inacabado. A ele retorno com o propósito de alimentá-lo com mais frequência, o que para mim será extremamente benéfico, inclusive do ponto de vista pessoal. Vou aproveitar para registrar outros escritos, feitos em outras épocas - pré-internáuticas ainda - que certamente revelarão um outro Fred (principalmente para aqueles que já me conhecem).

Espero que o leitor que por aqui passar possa encontrar alguns pontos sobre os quais pensar. E, se sua generosidade permitir, deixar a contribuição de suas opiniões e seus pensamentos a respeito do que encontrar registrado para, inclusive, provocar minha contrarreflexão.

Boa leitura e obrigado pela visita.
Fred

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